Um outro Chile: entre pérolas e cicatrizes

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*Clara Cuevas

Texto dedicado ao gato Bóris do largo da ordem
in memoriam

Falar de um cidade, um país, é sempre ficcionar, generalizar, criar uma atmosfera, uma história, um cenário. Por este motivo, não é incomum ouvir diferentes relatos e opiniões sobre um mesmo local, afinal, tais opiniões estão diretamente ligadas às experiências. Sempre ouço comentários desse tipo: que tal cidade é “mais evoluída” ou “mais feia”; que as pessoas de tal lugar são “mal-educadas”; “muito bem educadas”, ou até mesmo que as pessoas de um determinado país são “de primeiro nível”. Acho curioso e entendo essas afirmações que generalizam uma sociedade, afinal, são séculos de formação de julgamentos depositados sobre nossas costas e falas e, principalmente, de geração de expectativas: quanto mais prédios numa cidade ela é considerada “mais evoluída”, quanto mais limpa “mais de primeiro mundo”, quanto mais edifícios coloniais “mais charmosa”. Pessoas nos ônibus lendo livros são “sinal de que são mais cultas que nós”, pessoas usando o celular no metrô “sinal da falta de afeto dos nossos tempos modernos”. Enfim, quantas vezes não ouvimos estes tipos de comentários sobre algum lugar?

Um dos países que mais passam por este crivo ultimamente é o Chile. Com a diminuição dos preços das passagens aéreas no Brasil, cada vez mais brasileiros têm ido conhecer “o único país da América Latina que deu certo”. Mas, afinal, o que é “dar certo”? Direita e esquerda brasileiras costumam admirar o Chile, formando em suas mentes a imagem de um país desenvolvido (mesmo com ideologias distintas, o critério de “evolução” e “progresso” é o mesmo). Segundo estas opiniões, o frio “europeu” e as vinhas refinadas fazem o “charme” do país que, certamente, é o país mais neoliberal da América Latina.

Frente a todos estes comentários e, diante de uma ideia de Chile “coletivo” e “de cada um”, com o privilégio de poder frequentemente ir ao país por questões familiares, posso tentar pincelar o que seria o tal “Chile” pra mim, essa linda lombriguinha do mapa que engorda um pouquinho a cada temblor, a cada terremoto.

A minha ficção-Chile não é o Chile que “deu certo” definitivamente. Passo longe dos critérios capitalistas para definir o “nível” de uma região, ter prédios espelhados, metrôs e grande influência inglesa não significa “dar certo” para mim. Aliás, são essas demonstrações de progresso econômico – de enriquecimento de poucos sobre a pobreza de outros – que estão intimamente ligadas à violência policial e às cicatrizes que tanto marcam a história recente do Chilito.

Visita de Milton Friedman, considerado um dos pais do neoliberalismo, à Augusto Pinochet, 1975. Para saber mais sobre a implementação do neoliberalismo no Chile e suas relações com o regime, assista o documentário Chicago Boys, de Carola Fuentes e Rafael Valdeavellano, 2015.

Ignoro também a Santiago da Sanhathan – alusão à Manhathan -, do bairro Las Condes, lugar, segundo Lemebel, de “habitantes frívolos e cômodos que luzem o esplendor de suas pérolas cultivadas pelo excesso neoliberal”, do bairro Providencia – os bairros-Batel da capital chilena-, gosto dos grafittis, dos pixos do centro, dos cachorros de rua e dos raps fortes que ouvimos nos vagões do metrô, de raperos tensos fugindo da constante vigilância policial enquanto tentam passar uma mensagem e receber uns trocados.

O Chile que conheci é um país de famílias imensas, é comum encontrar famílias nucleares com três, quatro filhos, portanto, de pais e/ou mães que trabalham duro, praticamente sem direitos trabalhistas com, às vezes, 15 dias de férias anuais. Fazer bico é prática comum também, fritar empanadas para vender, fazer completos (um tipo de cachorro-quente) para conseguir um dinheiro, às vezes até sustentar a família com isso, aumentar a renda, enfim, práticas de autogestão comuns em qualquer país de extrema desigualdade social.

O Chile que conheço tampouco é “machista” ou “feminista”, mas ambos. De política baseada nos fundamentos e valores cristãos – como o Brasil -, como também em qualquer país latino-americano, enquanto o estado segue uma feroz política de violação dos direitos das mulheres ao proibir o aborto e dificultar o acesso ao Misoprostol – medidas agravadas no período democrático e, pasmem, aprofundado no governo de Bachelet– não é difícil ouvir alguns comentários bastante depreciativos pelas ruas, porém, há muita resistência, em todos os sentidos.

MUJERES, CIGARRILLOS Y GARABATOS: “Uma mulher perde 50% de sua beleza com um cigarro na boca e 100% falando palavrão”. Uma banca de jornal no centro de Santiago. Acervo da autora, janeiro de 2014.

Movimentam as cidades dezenas de coletivos feministas, anarquistas, de dissidência-sexual, marchas animalistas, anti-proibicionistas – é notável os efeitos da lei que despenalizou o cultivo de maconha no Chile ano passado, em uma feira das pulgas no Parque Almagro em Santiago foi possível ver diversos jovens vendendo produtos à base da erva, pomadas medicinais, bombons, trufas e até lubrificantes íntimos – além de um intenso movimento estudantil que continua reivindicando o fim do sistema neoliberal na educação, implementado na ditadura e que continua em vigor – apesar do anúncio recente da presidenta Michelle Bachelet de que uma pequena parte da educação superior contará com a gratuidade a partir de 2016 – e uma incansável luta por preservar a memória das vítimas da ditadura pinochetista.

E Pinochet, é um inimigo unânime no país? Certamente não. É um mito a crença de que todos os chilenos são militantes comunas e odiadores do antigo ditador. Há uma parcela da população, principalmente a que ganhou muito dinheiro com o advento do neoliberalismo no Chile, implantado na década de 1970, que continua apoiando suas medidas, com os mesmos argumentos infundáveis de todos os defensores de ditaduras que conheci pela América Latina “havia mais segurança e menos corrupção naquela época”, como sabemos, puro mau-caratismo e amnésia. Porém, no que se refere à memória dos tempos de chumbo, o Chile dá sim, mesmo que com suspiro de insatisfação, uma lavada no Brasil.

Contando com constantes julgamentos de torturadores que duram até hoje, ou mesmo com a histórica prisão de Augusto Pinochet em 1998, o Chile é, sem dúvida, uma referência na produção de memória e justiça sobre a ditadura. Uma memória incompleta, insatisfeita, dolorida, mais ainda ali. Como uma cicatriz mal curada no meio das pérolas cínicas do desenvolvimentismo.

O Chile que indico também não é o das mães católicas batendo panela pela permanência de El Tata – apelido carinhoso cunhado ao ditador – nos anos 1990, tampouco o dos parlamentares cristãos e até palestinos ricos que governam por partidos de centro-direita, como Francisco Chahuán ou Fuad Chahin, nem dos milionários Luksic – família dona do norte chileno, nem de Paulmann – dono, entre outras coisas, do famoso edifício Costanera Center, um edifício altíssimo que, pela opulência, mais parece a Torre de Sauron – ou Sebastián Piñera, ex-presidente do país, o primeiro candidato de direita eleito após a democratização, coincidentemente, o retorno da direita ocorre em 2010, no mesmo ano do último grande terremoto**.

Não é o país dos democratas que fizeram acordos grandiosos com o sistema neoliberal no período transicional e que continuam enriquecendo com os panos quentes da democracia. Mas das manifestações contra o aumento da passagem do metrô, de centenas de milhares de estudantes e pais que não suportam mais ter que financiar uma universidade por 30 anos ou mais. Não é o Chile de Viña del Mar, essa “cidade-jardim semeada pela direita” segundo Pedro Lemebel, uma verdadeira Beverly Hills deslocada, mas dos cães enormes e dos gatos callejeros de Valparaíso. Dos montes de Valpo, dos tristes incêndios dos barracos de Valpo. É um Chile chiquito, de mães que buscam seus filhos desaparecidos em Calama***, de sepulturas chiquitas, com todo o silêncio do deserto de Atacama, com toda a profundidade do Pacífico e das letras de Violeta Parra, ícone do folclore nacional, e Victor Jara, torturado e morto pelos militares no Estadio Chile em 16 de setembro de 1973, local que, por este motivo, hoje leva seu nome.

Sepultura de Victor Jara, flores e bandeira Mapuche. Cementerio General. Acervo pessoal da autora, janeiro de 2014.

Recomendo, portanto, aos colegas que pretendem conhecê-lo, não o Chile narciso, orgulhoso de sua economia baseada no lucro, na corrupção e no monopólio, mas o Chile do suor das reivindicações populares e das festas, das bachatas dos comércios baratos, do lúdico da Banda Conmoción, não o Chile conservador e racista – ultimamente, o do nacionalismo baseado na repugnância aos negros colombianos – mas nas potências dos corpos alegres que seguem resistindo à violência e à pobreza, das performances de Irina la Loca e Hija de Perra, dos motes con huesillos, da cartas de amor lésbico entre Gabriela Mistral e Doris Dana, do deserto e do Pacífico, de um outro Chile, da arte e da persistência de ser um país de pérolas e cicatrizes.

* Mestre em História, Cultura e Sociedade pela UFPR, pesquisa temas relacionados à sexualidade e América Latina, memória travesti, ditadura, justiça e dissidência sexual. É professora de espanhol, história e gênero.

** Para saber mais sobre o período de transição democrática e os tremores políticos de 2010, ler Crítica de la memoria de Nelly Richard. Santiago, Ediciones Universidad Diego Portales, 2010.

*** Para saber mais sobre as mães de Calama que seguem procurando os restos mortais de seus filhos desaparecidos pelo deserto do Atacama ver o documentário Nostalgia de la Luz, de Patricio Guzmán, 2010.