Pelo direito à controvérsia

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*Gonçalo Cholant

Sabes quem é Kerry Washington? Já ouviste falar em Scandal? Kerry Washington interpreta Olivia Pope, uma advogada renomada que trabalha para a Casa Branca, fazendo qualquer coisa necessária para assegurar a estabilidade da instituição e dos Estados Unidos. Entretanto, esta não é uma postagem sobre Scandal e sim sobre a atriz.

Kerry deparou-se nessa semana com uma situação já corriqueira nos dias de hoje, o abuso nos retoques fotográficos. Ao participar de uma reportagem publicada no início deste mês para a revista Adweek, Kerry não reconhecia na publicação a imagem que via no espelho. Este tipo de manipulação de imagem é dado como parte integrante da publicidade contemporânea e Kerry não é a primeira atriz a sentir que os ajustes passaram do ponto aceitável.  No Brasil, recentemente, a polêmica envolve Luana Piovani, que estreou a capa da nova fase da Playboy, cujos retoques não refletem a realidade mais imediatista que se pode encontrar pelas redes sociais da atriz.

Este choque entre o que se é e o que se retoca e vende tende a acabar de duas maneiras: ou a modelo ignora/ironiza comentários sobre estes retoques, (como fez Piovani em sua conta do Instagram. Essa semana, a atriz chegou a se envolver em um polêmico caso de racismo ao responder uma seguidora) ou reage de forma veemente a este tipo de abuso sobre sua imagem e consequentemente rechaça a publicação.

Kerry resolveu a situação de outro modo. Em um comentário em suas redes sociais ela escreve:

Kerry-Washington-Adweek-Instagram-Post

“Então, vocês conhecem-me. Eu não sou de ficar quieta sobre capas de revista. Eu sempre comemoro quando uma publicação respeitada me convida para agraciar as suas páginas. É uma honra. E um privilégio. E a ADWEEK não é uma exceção. Eu amo a ADWEEK. É uma publicação que eu aprecio. E aprendo com ela. Por muito tempo que os acompanho no Twitter. E quando me convidaram para fazer uma capa, eu fiquei contente e emocionada. E a verdade é que eu ainda estou contente. Estou orgulhosa da matéria. E eu gosto de umas tantas imagens do interior da revista. Mas tenho de ser honesta… Eu fiquei chocada com a capa. Veja, Photoshop não me é estranho. Acontece o tempo todo. De algum modo nos tornamos a sociedade dos que ajustam imagens – quem não adora um filtro?!? E eu nem sempre condeno estes ajustes, mas eu já tive a oportunidade de falar sobre o impacto da minha imagem alterada e acredito que é um diálogo válido. Ontem, no entanto, senti-me cansada. Foi estranho ver uma fotografia de mim que é tão diferente daquilo que eu vejo no espelho. É uma sensação infeliz. Dito isso, vocês têm sido queridos e solidários. Também, como eu havia dito, eu estou muito orgulhosa da matéria. Existem algumas coisas que discutimos na entrevista que foram deixadas de fora. Coisas que são importantes para mim (tais como: a importância do forte apoio profissional e a minha equipe profissional fantástica) e tenho pensado sobre como discutir estas coisas com quem estiver interessado, em uma outra plataforma. Mas até lá… Apanhem a ADWEEK desta semana. Leiam. Espero que gostem. E obrigado por serem pacientes  comigo enquanto eu descobria como postar isto de maneira que fosse ao mesmo tempo comemorativa e honesta. XOXOXOX”

A parte mais relevante disso tudo é que Kerry devolve para seus fãs e leitores em geral uma possibilidade de diálogo, onde as impressões conflituosas que teve coexistem em imperfeita harmonia. Certamente ela preferia reconhecer-se imediatamente na capa, identificar ali aquilo que é familiar. Ela reconhece que a revista errou. Mas não em tudo. Afinal, a entrevista, embora com algum porém, teve um bom resultado. A atriz é capaz de criticar a revista, sem deixar de reconhecer os méritos da publicação. E mais importantemente, o faz de maneira respeitosa e séria.

Percebemos aqui o quão alienados estamos em termos de diálogo e aceitação, quando uma opinião corriqueira sobre um tema “banal” é capaz de gerar impacto e fazer com que repensemos nossas posições e como temos lidado com os conflitos que sentimos por dentro.

Aceitar que as coisas não são como idealizamos, reconhecer os erros, agradecer pelo acertos, é uma via que parece ter sido esquecida em nossos dias. Em tempos de polarização extrema, em que o ódio transborda em comentários na internet e nas ruas, Kerry relembra que aceitar ter conflitos internos é humano.

* É formado em letras pela UFPEL e tem Mestrado em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra. Atualmente, é doutorando no programa em Estudos Americanos pela mesma universidade portuguesa e dedica-se à investigação sobre escritoras afro-americanas e afro-caribenhas.

Créditos das imagens: Cosmopolitan.com e The Wrap.