Para tudo! Com Lorelay Fox

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*Gonçalo Cholant

O ativismo e a militância na internet tornaram-se assuntos recorrentes nos últimos anos, com a popularização de vias alternativas de articulação e circulação de informação. Nomeadamente por meio de plataformas como o Facebook e o Twitter, criaram a revolução digital, que modificou o modo como os movimentos sociais se fazem presentes em suas lutas, como combatem ideologias opressoras e como organizam manifestações presenciais e digitais. O Youtube se junta a estas plataformas como um espaço digital onde o disseminar de ideias, de conversas e de questionamentos por meio de vídeos é acessível a uma parcela cada vez mais ampla da sociedade. Juntamente com estas mudanças houve também um aumento de visibilidade para diversos grupos marginalizados pelas grandes mídias, suas lutas e circunstâncias.

Lorelay Fox é um exemplo disto tudo. Ela e seu criador Danilo são os responsáveis pelo canal Para Tudo, em que assuntos como travestismo, homofobia e cultura pop são abordados de forma dinâmica, inteligente e com humor. Ela, por vezes ele, trás para o público jovem e adulto, um universo todo novo e uma realidade cotidiana de uma identidade que, para muitos, permanece obscura. Humanizando a figura da travesti no país que, estatisticamente, mais mata travestis e transexuais.

Travestir é resistir. É ter coragem de se expor. É gritar na cara da sociedade que a heteronormatividade não comporta a complexidade humana. É o chute na porta da realidade que abre espaço para que as outras identidades sexuais mais “aceitáveis” batalhem por seus direitos.

A travesti, tida normalmente como uma piada, uma entidade caricata ou um objeto sexual, mostra-se aqui como humana, complexa e em construção, interagindo com os acontecimentos e respondendo a eles. Fabricando seu discurso e contribuindo para um conjunto de leituras situadas da história do mundo. Em vlogs, um gênero popularizado no Youtube nos últimos anos, Lorelay discute questões relevantes para o Brasil e o mundo, com humor e engajamento.

Este tipo de formato, quase confessional, olho (na câmera no vídeo) no olho, em um tipo pós-moderno de autobiografia, propicia uma troca de experiências, mesmo que assincronicamente e em diferentes mídias (vídeo respostas, textos em comentários, disseminação de links), promovendo um diálogo constante. Ao encararmos Lorelay, e as vezes Danilo, enquanto ela (ou ele) conversa conosco, aproxima os espectador do produtor de conteúdo, estreitando o espaço que a mensagem tem de viajar para chegar ao seu destinatário.

Lorelay fala de tudo. De maquiagem, de tirar maquiagem, de Pokémon, de crescer sendo gay em uma cidade pequena, do ensino de gênero nas escolas, das mudanças na estrutura da família brasileira, da diferença entre travestis e transexuais, do feminismo negro e do impacto da apresentação da Beyoncé no SuperBowl. Dos privilégios sociais e das leis contra a homofobia/machismo, do lugar das lésbicas na sociedade e nos movimentos sociais em prol dos direitos sexuais, da função das paradas gays como instrumentos de ativismos LGBT, dos haters, de como lidar com a animosidade na internet e fala também da biografia da Nany People. Enfim, uma panóplia de temas em que a igualdade reina suprema como força motriz.

Vivemos em uma época privilegiada no que diz respeito à produção de conteúdo, onde qualidade não falta. Lorelay Fox é um exemplo disso. Não falta também conteúdo alienante, preconceituoso e infeliz, especialmente no que diz respeito à produção massificada dos grandes canais de televisão e das corporações midiáticas da internet, cujo objetivo não é nem somente entreter, ou informar, mas fazê-lo de forma lucrativa.

A conscientização coletiva e o estímulo ao questionamento são, como bem sabemos, fatores terciários nesta equação. Recentemente, Lorelay foi convidada para um segmento do programa Amor & Sexo, apresentado por Fernanda Lima na Rede Globo. Oxalá que esta parceria dê frutos, para que possamos todos, e cada vez mais, ter acesso a conteúdos transformativos e conscientes e engajados na luta por uma vida mais igual. E como assina Lorelay em todos seus vídeos, é nessa que eu vou.

*É formado em letras pela UFPEL e tem Mestrado em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra. Atualmente, é doutorando no programa em Estudos Americanos pela mesma universidade portuguesa e dedica-se à investigação sobre escritoras afro-americanas e afro-caribenhas.