O maio das mães e as mesmas mãos que mudam de corpo

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*Clara Cuevas

A brasileira Débora Maria da Silva é uma das fundadoras do Movimento Mães de Maio. O nome do grupo não se refere ao dia das mães, mas sim ao mês de maio de 2006, mês agitado, com dezenas de chacinas – resposta de grupos de extermínio com participação de vários agentes do Estado à ataques do PCC no período – que deixaram o saldo de, pelo menos, 600 mortos no Estado de São Paulo e, por consequência destas mortes, filhos, esposas e mães que passam por um luto que há 10 anos nunca deu trégua. Uma dessas vítimas foi Ana Paula, filha da cabeleireira Vera Lúcia, integrante das Mães de Maio, que estava grávida de nove meses quando foi baleada, junto ao seu marido, por quatro encapuzados. Ana Paula foi alvejada na cabeça e na barriga. Como a vida parece ser irônica e cínica às vezes, principalmente quando o Estado é parte interessada ou ativamente ineficiente, o inquérito sobre a morte de Ana Paula e o marido foi arquivado após apenas nove meses.

As argentinas Azucena Villaflor, María Ponce de Bianco e a paraguaia Esther Ballestrino, foram outras mães, fundadoras de outro movimento pela memória, verdade e justiça de seus filhos, talvez do grupo de maior destaque internacional na busca por estes corpos vítimas da ditadura militar argentina, o das incansáveis Madres de la Plaza de Mayo. Em busca de seus filhos desaparecidos, realizaram a primeira marcha em 30 de abril de 1977 e, desde então, – sim, até hoje – toda quinta-feira, perto das 15h30, durante 39 anos elas marcham na mesma praça. Ou melhor, estas três mães especificamente puderam marchar apenas alguns meses, já que foram sequestradas, torturadas e mortas por um grupo de militares, em dezembro do mesmo ano.

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O que essas tragédias maternas que parecem nunca terminar podem nos dizer? Além de evidenciar a força das mães que lutam, para além dos comerciais rosas com flores e perfumes, estas mães nos ensinam cotidianamente a fazer política, a exigir direitos, memória e justiça. Segundo Mercedes de Meroño, uma das Madres argentinas, foram os filhos delas que, na condição de mortos ou desaparecidos pariram estas mães lutadoras que, se antes viviam no espaço doméstico de cozinhar e costurar roupas para os filhos passaram a costurar faixas e bandeiras, lenços brancos, símbolo do grupo, para fazer exigir o mínimo: o conhecimento da localização dos corpos de seus filhos, de preferência, vivos. Para ela, foram os filhos que pariram a luta nestas mulheres, das entranhas dos tecidos caseiros aos gritos nas faixas das ruas.

As políticas das mães, brasileiras e argentinas, é a mesma. Uma política de não se vender, nunca desistir e de saber que a alteridade é o princípio fundamental para a viva convivência. Um princípio que parece inexistir tanto em tempos de ditadura como em tempos de democracia: “El outro soy yo”.

Se na Argentina de 1977, três mães fundadoras do movimento foram mortas por incomodarem o Estado ao buscar por seus filhos, no Brasil de 2016 Débora, Vera Lúcia, e tantas outras, denunciam que pela dura arquitetura da democracia brasileira, que pouco ou nada fez para sanar as consequências da ditadura militar, corre um líquido doloroso, o “sangue nosso que dá liga ao cimento”.

Em 2013, após uma mobilização constante, ao menos desde 2006, as Mães de Maio conseguiram aprovar a Lei n° 14.981, de 05/04/2013 que coloca no Calendário Turístico do Estado de São Paulo, o “Dia das Mães de Maio” a ser lembrado, anualmente, no dia 12 de maio. Nós, os vivos, precisamos de uma lei para lembrar desta violência que ultrapassa tempos e geografias, mas as mães, sabemos, nunca esqueceram, já que essa ausência nunca deixa de estar ali. Essa “síndrome do membro fantasma” das Mães de Maio e das Madres de la Plaza de Mayo demonstram o quão frágeis são as estruturas metodológicas que usamos para tratar os períodos históricos, o antes e o hoje, a ditadura, a democracia, são binômios que parecem não existir. Mudam os corpos, dos vivos e mortos, mas a mão do terrorismo do estado segue firme e bem viva.

Maio é mês das mães. Vamos ajudar estas mães a interromper o rajar das metralhadoras? A pararem de velar seus filhos? Vamos lembrar? Fazer lembrar? Vamos nunca esquecer? Esquecer é estar derrotado. Mas, esta constatação não é nenhuma novidade, afinal, como sempre, as Mães e as Madres sempre sabem.

Saiba mais: https://www.youtube.com/watch?v=0G0W-nfvFgE

*Mestre em História, Cultura e Sociedade pela UFPR, pesquisa temas relacionados à sexualidade e América Latina, memória travesti, ditadura, justiça e dissidência sexual. É professora de espanhol, história e gênero. Tenta lançar palavras entre a anarquia das ruas e a adrenalina da prestação que vai vencer. É colunista sobre os temas história e gênero nas redes da Brigadeiro.