Mineirinho: O crime, o eu e o outro.

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*Beatriz Campoy

 “É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora”

Assim se inicia a crônica/conto de Clarisse Lispector chamada de Mineirinho. Nele, a escritora tenta compreender a razão por estar tão chocada com a notícia dos treze tiros que atingiram José Miranda Rosa, famoso pelos crimes praticados no Rio de Janeiro na década de 1960, principalmente roubos. Condenado a 104 anos de prisão, fugiu, passando a ser procurado por mais de 300 policiais, tendo sido morto no dia 1.º de maio de 1962.

Trata-se, sem dúvidas, de um texto rico, tanto sob o ponto de vista literário, quanto político mas, sobretudo, ético. Questionar nossos posicionamentos quando nos deparamos com o crime é um desafio que se faz cada vez mais necessário em uma sociedade de extrema exposição à violência como a que vivemos hoje.

Não se trata de se estamos presenciando tempos mais ou menos violentos do que os que já se passaram, mas de como somos expostos a esta violência de maneira constante. Se antes, para termos acesso a fatos criminosos era necessária a busca por meios de comunicação específicos, como certos programas de televisão e rádio ou jornais, hoje, de forma quase involuntária presenciamos todos os tipos de notícias de fatos criminosos por meio da timeline de nossas redes sociais. A questão que se coloca é a seguinte, será que estamos preparados para isso sob um ponto de vista ético? Será que estamos acostumados a refletir a respeito do “eu” e do “outro” sob uma das perspectivas mais inquietantes que é o ato ou ação criminosa?

No texto citado, uma das escritoras mais brilhantes da nossa literatura expõe toda a dificuldade desta reflexão que, se na década de 1960 era algo que já se colocava, atualmente é imprescindível. Pensar o crime e tudo que o envolve não é mais uma temática atinente apenas aos bancos das faculdades de direito, sociologia, criminologia, jornalismo, filosofia. É algo que deve se estender a toda a sociedade. Os desdobramentos jurídicos, políticos, filosóficos, sociológicos e principalmente éticos da ação criminosa devem ser debatidos de forma ampla e criativa, pois se em outros tempos era possível nascer e morrer sem estar exposto ao crime, hoje acredito que trata-se de algo quase impossível.

E não digo que podemos ser apenas os sujeitos passivos (vítimas), ou os espectadores de tais fatos, estou dizendo que podemos ser, sim, os próprios autores. Nunca criminalizamos tanto as condutas e talvez poucas vezes o direito penal tenha sido tão abrangente. Se você já dirigiu depois de beber, mesmo sem colocar uma pessoa sequer em risco com este ato, pode ter cometido um crime. Estou dando este exemplo, pois é algo extremamente comum e a única diferença entre ser ou não ser um criminoso é uma simples fiscalização de rotina. Portanto, o outro que tanto tememos, que tanto rejeitamos, passa a ser eu. Ou talvez quando nos comovemos com o final trágico de algum criminoso, ou acreditamos que a sociedade também é responsável por certos crimes, o eu passo a ser um pouco do outro.

Neste ballet de papeis ainda é preciso compreender o eu como indivíduo e como parte do coletivo. Fato é que, pensar o crime não é mais algo facultativo. Há pouco tempo assisti a um júri quando me deparei na parte reservada aos espectadores com os alunos de ensino médio de um colégio. No início fiquei perplexa, para que levar adolescentes para presenciar aquele julgamento? Fui para casa pensando naquilo. Quando era adolescente minhas excursões escolares eram para museus, cinemas, nunca para assistir um júri. Depois pensei, por que não? O crime está tão presente nas vidas destes jovens como qualquer outra coisa, que seja então abordado de forma séria, reflexiva e que melhor lugar para fazê-lo se não na escola. Mesmo sem querer estes jovens irão se deparar com isso a qualquer momento em suas redes sociais, então que tornem-se pessoas capazes de construir ideias lúcidas a respeito deste fato.

Confesso que eu me revolto, choco, incomodo, compadeço e reconheço nestes fatos, que é a condição humana em carne viva, são as rachaduras sociais mais visíveis. Não pensar nisso é não pensar em si mesmo como ser humano e como ser social. Apesar de incômodo, que tenhamos esta coragem.

*Servidora Pública, bacharel em direito pelas Faculdades Integradas Antônio Eufrásio de Toledo, especialista em direitos humanos e democracia pelo Instituto Ius Gentium Conimbrigae da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e Mestre em Sociologia pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.