Games of Chron: diário de uma internação

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*Clara Cuevas

Na coluna de hoje da Brigadeiro Comunicação entrevistamos a poeta e tradutora argentina Leonor Silvestri que, entre muitas outras facetas, também é professora de filosofia, esportista de combate (Jiu Jitsu brasileiro, Muay Thai e Kick Boxing) e deficiente legal, portadora da chamada Síndrome de Chron, uma condição autoimune na qual o sistema imunológico ataca a própria região gastrointestinal produzindo inflamações.

Sua trajetória vital e política pode ser lida como uma busca pela consistência consigo mesma. Neste trajeto construiu uma obra que inclui performances, manifestos, fanzines, ensaios filosóficos, ativismo, profundos desencontros, programas de rádio e vídeos, bandas de punk-rock, exibicionismo e vários boatos: uma obra na qual ela mesma, como corpo, é a matéria prima e o produto sempre in progress.

Lançando o livro Game of Chrones, o diário de uma internação, e com a produção do documentário homônimo que pode ser conferido no desenrolar da entrevista, Leonor Silvestri nos convida a refletir sobre as potências dos corpos e nas condições capacitistas da nossa sociedade que continua produzindo padrões de normalidade e anormalidade enquadrando as várias potências de gênero, sexualidade e diversidade das capacidades funcionais.

leonor

Clara Cuevas – Como foi o devir (passar por, vir a ser) Chron pra você? Qual é a relação entre ser considerada deficiente e ser portadora de uma condição de deficiência?

Leonor Silvestri: Na verdade, como não me veem como deficiente as pessoas não me consideram deficiente. O que acaba sendo ainda mais problemático. É preciso lembrá-los que convivo com uma (condição) autoimune, que eu me canso, que estou sempre medicada, que não posso tomar ou comer tudo o que gostaria, que meu sistema imunológico, para funcionar bem, deve funcionar mal por estar deteriorado, pego doenças oportunistas, etc. É uma forma de discriminação a invisibilização das afecções não visíveis. Por um lado, discrimina porque se acredita que deficiência é somente uma pessoa com cadeira de rodas, o que é absolutamente estigmatizante para todo mundo; por outro lado, é uma discriminação porque se acredita que, como não me veem disca (discapacitada, deficiente), então nada me dói, ou que não sinto nada ou que não tenho necessidades especiais fora dos cânones de normalidade nos quais parece que habito, dado que não me vejo com o estigma de uma pessoa com deficiência propriamente dita. Teve uma pessoa que uma vez me disse “que terrível ter uma deficiência que não se vê”, realmente as pessoas não medem seus comentários. As pessoas se descuidam na hora de falar porque não sabem, nem entendem com o quê convivo. São simplesmente brutas e indiferentes. Mas eu me sinto ótima, com medo, claro, de voltar a ter que injetar a medicação com seringas, porque meu intestino é perfurado, ou de ficar internada. Convivo com esse temor, mas me sinto bem, inclusive melhor do que antes ainda que me cuide muito: já não bebo de qualquer copo, não compartilho nenhum fluído, já não é a mesma coisa dormir em qualquer lugar e já não é mais indiferente os níveis de higiene do lugar onde estou. É difícil de explicar, suponho que se deva senti-lo. Conviver com uma deficiência não é o fim do mundo, nem uma coisa tristíssima. Me dói pensar que as pessoas abortem fetos que considerem “mal formados”, por exemplo. A campanha pelo direito ao aborto na Argentina redigiu em seu projeto de lei que uma causa para o aborto seria a “má formação” do feto. Eu acredito no aborto, livre e gratuito, e também creio que não existem fetos mal formados, apenas fetos não desejados e que não desejar um feto porque não será visto ou porque não vai viver como se supõe que um corpo humano deve ser visto ou deve se sentir, é ser nazi eugenista disfarçada de feminista. Mas eu me sinto mais potente, ainda que, ao mesmo tempo, me sinta mais frágil que antes.

Documentário Games of Chron: Diario de una internación

Clara Cuevas – Como é ser uma esportista de combate com Chron?

Leonor Silvestri: Conheço uma pessoa que compete pelo MMA e provavelmente vai chegar no nível profissional com uma doença autoimune. Não há muita diferença. Eu só coloco mais atenção ao escutar meu corpo, tenho mais registros do meu corpo e descanso mais que antes. Não estou competindo neste momento, mas na verdade sempre me interessou mais o aspecto do treinamento de alto rendimento do que a competição em si. E, além disso, o deterioramento que carrego tem mais a ver com a idade do que com o Chron. Basicamente, como deve ser pra todo o mundo, quando dói ou estou exausta, descanso e paro um pouco, e isso também faz parte do treinamento. Dizem que o cansaço não faz bem às pessoas que convivemos com autoimunes. Eu acho que não nos faz bem não fazer o que desejamos e, para mim, treinar me fascina e por isso não parei de treinar. Explico minha situação a quem estiver instruindo a aula e quando é preciso tomamos as medidas necessárias. Mas meu gastroenterologista diz que não tem problema. Assim, tenho seguido adiante como se não tivesse Chron, mas tendo.

Clara Cuevas – Como você acha que os estudos de gênero e sexualidade podem dialogar com os devires que te possibilitou o Chron? Há feminismo no Chron ou o feminismo podia se infectar com as questões que são colocadas pela deficiência?

Há esse famoso fragmento de Examined Life de Judith Butler onde dialoga e caminha com Senaura Taylor, que é uma ativista do que em inglês se chama cripple studies (estudos deficientes, aleijados, paralíticos, incapacitados). Para mim essa conversa entre elas foi esclarecedora porque, por um lado, a primeira conexão é como uma pessoa pode ser submetida a um regime de coerção direta ou indireta (desde a psiquiatrização, correção médica, etc. até o bullying e a morte) e como ela é vista e se move, e aí encontramos toda uma relação entre gênero, em seu sentido performativo, e deficiência. Ultimamente, ando em uma linha ético-spinoziana de pensamento, mas me afastando do feminismo, como uma vez me afastei da poesia e do anarquismo. Continuo acreditando na ética feminista como creio na anarquia e no poder desautomatizador da palavra poética, mas já não creio no gênero literário, nem nos movimentos supostamente sociais que carregam esse nome. Atualmente, como te disse, se escreve uma lei onde se fala da “má formação do feto” e eu me pergunto se com “má formação” se referem à gravidez da qual a mulher já sabe que não vai proceder bem porque ela vai parir uma bola de carne que morre pouco depois de nascer ou se estamos falando de um bebê down. Realmente não acho que a deficiência exista mais que como efeito de uma sociedade que “deficientiza” (que discapacita, cria a deficiência), que a loucura é uma produção do capitalismo e que uma boa parte das doenças são rasas e superficialmente essências singulares diversas ao standard de normalidade que maneja a biologia que é uma maneira de fazer política. Ainda que eu saiba que vou mudar de opinião porque não faz muito tempo que investigo o tema e porque faz pouco tempo que fui diagnosticada e que me chamam de “doente”. Mas, a princípio, acredito que somos mutantes, diversas, e que como tal deveríamos ser apreciadas, em todo o esplendor de nossas formas genéticas e nossas capacidades de afetação, ou potências, que em muitos casos é ainda maior que o do denominador comum das pessoas. Como me ensinou Amanda Baggs em seus vídeos, creio que uma pessoa diagnosticada com autismo tem mais capacidade de afetação que a pessoa universitária média, mas que não quer, conscientemente ou não, participar dos rituais deste mundo capitalista de hostilidade fatal. Além disso, muitas de nós – as discas (discapacitadas), devolvemos ao mundo uma imagem não reconciliada com o que o mundo glorifica do progresso: trabalhar, ter sucesso, construir uma carreira, ser bonitas. Acho que muitas vezes as distintas deficiências colocam diante dos olhos daquelas pessoas que estão convencidas de serem normais, porque carecem do diagnóstico dado o paradigma no qual vivemos. Coisas que querem negar: que o avanço não é tal, que o progresso e o trabalho não são saúde, que todas somos de um modo ou outro deficientes ou que vamos ser porque a deterioração é inevitável e, por isso, eu celebro esta condição, entre outras coisas.

Leia a entrevista completa no blog da historiadora: lacuevas.wordpress.com

*Mestre em História, Cultura e Sociedade pela UFPR, pesquisa temas relacionados à sexualidade e América Latina, memória travesti, ditadura, justiça e dissidência sexual. É professora de espanhol, história e gênero.