Do tamanho do sertão

0

12208718_10205332878858312_7339103082751770989_n (1)Viajar pra nada. Viajar sozinha. A sequência de hotéis baratos em cidades não-turísticas, os ângulos inusitados do São Francisco, os pescadores nas barcas sem fazer a menor ideia da grandiosidade da cena que compunham. E a água quase secando e a música sertaneja onipresente.

Mas isso quase não importa. Importa o Koji, velhinho japonês que reformou um barco com garrafas pet (em uma das cidades que ele me recomendou a visita, a dona do mercado se lembrava do “moço que veio navegando num cano). Koji lia Galeano e se espantava com o machismo das religiões, tomando cerveja quente na Casa do Artesanato numa tarde de quarta-feira.

Importam talvez as moças em Carinhanha que disseram ter sido o primeiro casal a reconhecer união homoafetiva na Bahia, mesmo que depois e a conversa tenha degringolado para terminar nos castigos horríveis que Deus vai infligir a todos nós por termos transformado Sua criação em um antro de maldade e pecado, como o próprio amor delas, Sodoma e Gomorra, sangue e cabeças decapitadas.

E Givaldinho, amigo do senador de Manga que me deu carona pra cima e pra baixo, e as comunidades quilombolas com aguardente caseira que nocauteava; as camas emprestadas, mulheres cozinhando peixe, homens dançando com as armas na cintura, o delegado, as crianças gritando que eu tinha o cabelo rapado.

E as meninas em Januária que me contaram do crime brutal que motivou a caminhada pela paz na cidade na véspera: três menores e um adulto atiraram um garoto ao rio com uma pedra pendurada no pescoço. Uma senhorinha que conversou comigo enquanto eu caminhava e depois pediu dinheiro.

Mais tarde, um beco, uma rua sem saída, um velho bêbado cantando com a voz encharcada dos velhos bêbados ao meio-dia uma saudade pornográfica. O taxista apontando a senhorinha na rua e dizendo que ela era, na verdade, a mãe do adulto preso pelo assassinato do menino.

E as mães solteiras, de quem nem cheguei a saber o nome, as mais entusiastas da minha jornada, as únicas que não perguntavam “mas não tinha um namorado pra trazer com você, não? Nem um amigo?”, as únicas que sabiam que tem hora que só tem a gente mesmo. As solidões, minha e delas, que se cumprimentavam com respeito e iam embora menos solitárias.

Viajar pra nada, viajar sozinha, viajar pra aprender a conversar.