Desconforto

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*Fabíola Cottet

Desconforto. A primeira sensação, ao ler essa palavra pela primeira vez é que algo está errado. Sei lá, ela causa um certo asco, um certo faniquito, um tipo de… desconforto. Meu intuito aqui é fazer você mudar de ideia até o final deste texto. Qual é o preço que você está disposto a pagar para realizar um sonho? Até onde você está disposto a ir? Do que você pode abrir mão? Meu amigo, se você é daqueles que não gosta de sair do seu bairro, este texto não é para você, pode parar por aqui.

Faz algum tempo que não consigo sentar e escrever devido às diversas mudanças que aconteceram na minha vida nos últimos meses. A maior delas, e que teve como consequência todas as outras, foi a minha mudança de país. Hoje moro em Toronto, no Canadá, há quase três meses e ao invés de colunista da Brigadeiro, passo a ser correspondente, expandindo ainda mais as fronteiras da agência.

Em breve estaremos operando por aqui também. Por hora, tenho muita coisa que gostaria de dizer/escrever, mas a condição espaço/tempo não me permite colocar tudo em um texto, então farei isso em doses homeopáticas, com textos mais frequentes de agora em diante.

Já fiz tanta coisa desde que cheguei que quando penso em três meses me parece um tempo muito maior. Mas hoje eu estou aqui para falar do desconforto que isso causa. Uma vez li uma frase que é exatamente o que eu penso, que diz que algumas pessoas têm medo de mudanças. Já eu, tenho medo que as coisas nunca mudem. Quando eu fui presidente da comissão de formatura, quando eu sempre quero tomar as rédeas de algo, quando eu digo: não, dá certo sim, vamos lá. Ou solto um “deixa comigo que eu faço”, sempre acabo ficando sobrecarregada e me perguntando depois o porque eu tenho essas ideias mirabolantes de fazer coisas que os outros podem fazer. No fim das contas sempre vale a pena. A minha vida inteira eu procurei pelo desconforto, pelo inquieto, pelo diferente, pelo mais difícil. Agora não é diferente.

Viajante apaixonada que sou, o Brasil nunca foi meu único lugar. Amo a Europa, mas tenho uma paixão incontida (confesso que isso foi culpa do meu marido que me convenceu a visitar a Califórnia), pelos Estados Unidos, mais especificamente San Diego.

Eu moro em Toronto e simplesmente amo esse lugar. Amo o fato de poder tirar um computador no meio do transporte coletivo às 22h e nada acontecer com você e nem com ele ou com seu celular. Simplesmente tenho orgasmos intelectuais com o tanto de programas culturais que se tem pra fazer nessa cidade todos os dias, além das lindas, enormes e numerosas bibliotecas públicas espalhadas por aqui. Amo a limpeza e organização presente em todo o país. Me espanto positivamente todos os dias com o senso de bem comum e de coletividade que paira em quase que 100% dos moradores daqui. Ninguém entra no metrô ou ônibus, antes do último desembarcar, ninguém faz escândalo, ninguém fura fila e o respeito com ciclistas é algo excepcional.

Mas, sim, mas… É complicado (palavra substituída propositalmente para não escrever um palavrão). É desconfortável. É complicado porque você funde os neurônios cerca de 10 horas por dia para falar e pensar em inglês o tempo todo. Acreditem, isso é muito cansativo. Tínhamos combinado, eu e meu marido, que falaríamos inglês para praticar e tudo mais, mas é impensável. Quando você chega em casa depois do trabalho ou estudos, a única coisa que você quer é um abraço amigo e alguém que te compreenda na sua língua, expressando exatamente o que você quer dizer. É quase que absolutamente torturante viver a oito mil quilômetros de distância de quem você ama.

Nesse tempo, quase não vimos a nossa sobrinha nascer, não vimos um afilhado amado vir ao mundo, não estamos acompanhando como gostaríamos o crescimento do nosso outro afilhado, não veremos o nascimento do nosso quarto sobrinho. Não participamos mais dos aniversários dos amigos, não conseguimos enviar um presente, não estamos presentes nas festas e almoços de família. Família. Só de ouvir essa palavra você tem vontade de pegar o “primeiro avião com destino à felicidade”. Sim, você tem vontade de tirar seus pais do Skype e materializá-los na sua frente, junto com a sua cadela, que faz uma falta imensa.

Isso sem contar os amigos, aqueles que são família também. Nesse meio tempo a minha irmã de coração passou por momentos bastante complicados e eu não estava lá para ajudar da maneira como queria. E não havia muita coisa que eu pudesse fazer com relação a isso além de torcer e rezar bastante pra que tudo ficasse bem.

Há uns 15 dias li um texto incrível da Ruth Manus que fala exatamente disso, da sua zona de conforto. Abrir mão dos seus confortos diários dá trabalho. Tem que ter garra, coragem, força. Mas não to falando da garra que você tem quando está na faculdade e precisa se formar. É muito mais do que isso. É garra de querer muito. É garra de escolher aquilo, mesmo sabendo que terá de jogar dúzias de privilégios e confortos pro alto.

Agora mesmo, eu estou sentada escrevendo este texto na cafeteria da faculdade onde meu marido estuda. Na mesa ao lado tem três brancos que volta e meia falam em um idioma incompreensível e irreconhecível (imagino que seja algo meio nórdico), um indiano, um negro e três asiáticos. De tempo em tempo todos eles se comunicam em inglês e riem, falando a respeito das aulas e trabalhos pra entregar. A diversidade da mesa em frente não é diferente.

Tem outra coisa que ouvi ao longo da minha vida que levo quase que como um mantra: pra chegar aonde a maioria não chega, você vai ter que fazer o que a maioria não faz. Até onde eu sei a gente só vive uma vez. Então, por você, sai da sua zona de conforto. Se dá medo? Pombas. Deu 585 tipos de medos diferentes. Deu medo de não conseguir soltar a língua no inglês, deu medo de não conseguir trabalho, deu medo de não conseguir visto, deu medo do avião, deu medo de não conseguir passar na imigração, deu medo de não achar um cantinho pra morar, deu medo da saúde, deu medo de chegar e não conhecer ninguém, não ter ninguém ali por você. Mas a gente veio, com medo mesmo. E ah, continua dando medo todos os dias.

Mas, cada escolha é uma renúncia e quando você se dispõe a sair da sua zona de conforto você sempre pensa: gente, porque mesmo que eu não fiz isso antes? Tentar faz sentido, cada pequena conquista faz muito sentido. O desconforto é tentativa, é erro, é se jogar, é aquele suspiro ao levantar todos os dias e olhar pela janela: vale a pena, sempre vai valer.

*Formada em jornalismo pela PUCPR tem especialização em Comunicação Empresarial e Institucional pela UTFPR. Trabalhou na Editora MundoGEO produzindo conteúdo para diferentes revistas. Com mais de sete anos de experiência em assessoria de imprensa, Fabíola destaca seu trabalho no caso do acidente da Gol – 1907. Na Brigadeiro, atua como coordenadora da área de gerenciamento de crises e também é correspondente no Canadá.