De quem é a cidade?

0

*Luiza Calegari

Fernando Haddad pareceu deixar clara a resposta a esta pergunta na terça-feira passada: enquanto sua Guarda Civil Metropolitana admitiu confiscar os pertences de moradores de rua para evitar a “privatização” do espaço público, a Prefeitura liberava a construção de um shopping center monumental na ilha da marginal Pinheiros, em frente ao já conhecido shopping Cidade Jardim, uma área que deveria ser de preservação ambiental.

Está claro que o shopping tem prevalência sobre o morador de rua na cidade, o que, aliás, é perfeitamente natural para o paulistano médio. A noção está tão entranhada na identidade municipal que nem a alternância de poder entre os partidos mais alinhados à direita e os que tendem à esquerda parece afetar a supremacia do consumidor sobre o cidadão – ao menos no mainstream.

Arriscando enfurecer os governistas que culpam “os protestos de 2013 pelo impeachment”, alegando que ir às ruas contra Haddad foi um erro, venho defender que a crítica seja feita. Haddad não podia fazer a gestão como vem fazendo, cedendo a pressões ou abertamente defendendo empresas de ônibus, gigantes imobiliárias, ações higienistas da GCM.

Não sei se é inabilidade política ou característica pessoal, mas Haddad parece disposto a morrer abraçado a tudo o que é feito na sua gestão. Esse estilo pode ser eficaz, como no caso das ciclovias e faixas de ônibus, que demandaram teimosia para serem implantadas, mas, por outro lado, o deixa cego para as desumanidades e contradições da sua gestão.

Especificamente, Haddad não podia fazer política do jeito que faz porque tinha o apoio apaixonado de uma juventude que há tempos não se politizava. Ele achou que seria suficiente governar para “nós” abrindo a Paulista aos domingos e colocando ciclovias, mas tem sido difícil ignorar os abismos sociais que a crise escancarou e com os quais a Prefeitura não tem conseguido lidar.

Nem entro no mérito da crítica conservadora – que acha que ciclovia, faixa exclusiva de ônibus e redução da velocidade máxima nas marginais são empecilhos ao direito de ir e vir. Os editorialistas do Estadão vão encontrar qualquer motivo para criticar uma gestão petista – nem que para isso tenham que fingir que se importam com os moradores de rua.

Ainda assim, depois da frente fria, só é possível defender a gestão de Haddad, à esquerda, de dentro da bolha do circuito linha verde do metrô feat. bike do Itaú.

Enquanto a especulação imobiliária cresce sem freio, pessoas como eu vão expulsando os moradores de um centro degradado com nossos restaurantes e festas hipsters, até que nós mesmos não possamos mais pagar o aluguel extorsivo da região (e temos cada vez menos tempo para habitar um bairro, já que as transformações que antes demoravam anos agora ocorrem em meses).

Enquanto isso, a periferia ganha iluminação de led, grafites e shows da virada cultural, mas tem trajetos de ônibus alterados sem aviso prévio e não recebe nem um milésimo do investimento necessário em escolas, creches e hospitais, por exemplo. As prioridades continuam sendo os shoppings, e não foi para isso que elegemos Haddad.

Quero deixar claro que acho que é, sim, urgente retomar o espaço público para as pessoas. Mas não dá pra melhorar a cidade para os estudantes de humanas enquanto o lixo se acumula nas ruas e pessoas morrem de frio sem colchões e barracas. Mais fundamental que ocupar as cidades é não gentrificá-las.

*Formada em Jornalismo pela UEL, participou do trainee do Estadão 2011 e extensão em economia na Fipe/USP em 2013. Foi repórter do UOL entre agosto de 2012 e agosto de 2015. É correspondente itinerante da Brigadeiro, já que vive  em todas as partes do Brasil.

**Crédito da imagem: Eduardo Knapp – Folhapress