A representabilidade e o Cauã

0

*Gonçalo Cholant

Cauã Raymond interpreta uma transsexual no vídeo clipe de “Your Armies” de Barbara Ohana. Barbara quem? Sim, Ohana, sobrinha da Cláudia. A carreira de Bárbara começa em 2015, com o álbum Dreamers. E recentemente lançou um novo single, do qual resulta a produção deste videoclip que conta com a direção de Allexia Galvão e Daniel Rezende: ela assistente de direção na Rede Globo e ele um relevante nome da cinematografia brasileira, indicado ao Oscar e ganhador do BAFTA por melhor edição em Cidade de Deus de 2002. Gente que sabe o que faz.

Barbara Ohana busca visibilidade em um mundo notavelmente competitivo da música pop dos nossos tempos. Para além da música, a artista conta com uma panóplia de recursos digitais para dar suporte ao seu trabalho. Em ”Your Armies” Ohana busca a viralização, que está somente a alguns (milhares de) cliques de distância. Como chegar lá? Como garantir a sequência de “likes” e “shares” e a montanha de capital social/cultural? Como ser reconhecida e falada? Devemos encontrar algo que instigue o público, que prenda a atenção e entretenha e que, é claro, tenha aquele elemento de responsabilidade social que fica bem, aderindo à vaga socialmente consciente da igualdade progressista cooptada pelo capitalismo para vender, vender e vender.

Cauã Raymond interpretando uma mulher transsexual em uma narrativa de violência e superação? Bingo! Viraliza. Gera comentário para todos os lados, pro bem (olha que interessante! Ela defende uma minoria e dá voz para quem não tem, joga na cara da sociedade a hipocrisia e o preconceito que estamos tentando desaprender) e para o mal (venham ver o Cauã vestido de mulher, é veado mesmo! Sempre soube!), dentre muitos outros que somente o abismo das seções de comentários conseguem oferecer.

A pergunta importante entretanto é: por que não uma atriz transsexual? “Ahh, um homem heterossexual não pode interpretar uma trans então? Ahhh, mas Cauã demonstra que é um ótimo ator ao interpretar uma personagem tão fora da realidade dele!”

Até pode ser, mas é essa a questão? A narrativa toda não era para denunciar a violência sofrida sistematicamente por uma minoria social? Não existem atrizes trans competentes para essa tarefa? Não seria mais verossímil? Não estariam os diretores afetivamente criando um espaço onde estes sujeitos poderiam representar a sua luta diária?

Faz parecer que nem para falar sobre a violência cotidiana sofrida pela comunidade trans a comunidade trans tem autoridade.

“Ahh, que gente chata, se não fosse o Cauã ninguém ia estar falando sobre o vídeo e nem sobre os problemas todos! Ahh, a patrulha do politicamente correto está por todo lado! Fala mal até de quem está querendo ajudar!” Não. Aceitar este tipo de representação sem o devido questionamento reforça preconceitos e invizibiliza os reais sujeitos da questão trans. Barbara Ohana busca visibilidade e a comunidade trans também. Talvez o pessoal da Ohana pudesse aprender com o pessoal do Sense8.

PS: da música? nem ouvi falar…

*É formado em letras pela UFPEL e tem Mestrado em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra. Atualmente, é doutorando no programa em Estudos Americanos pela mesma universidade portuguesa e dedica-se à investigação sobre escritoras afro-americanas e afro-caribenhas. É colunistas de cultura e sociedade na Brigadeiro.

**Crédito da imagem: Música Pavê