A drag prova que você pode ser tudo que quiser

0

*Clara Cuevas

Ultimamente temos visto aparecer em grandes meios de comunicação, vários artistas que têm rompido com as normas de gênero e, nisso, as drags voltaram a fazer bastante sucesso. Gloria Groove e Pabllo Vittar são alguns exemplos disso. Porém, essa onda drag começou agora? Certamente não. Em busca de respostas para essa curiosidade e na tentativa de entender um pouco da história e da memória drag no Brasil, essa semana entrevistamos a ilustríssima Dalvinha Brandão, uma drag curitibana divíssima que recentemente tem se aventurado pelos paetês do Rio de Janeiro e que mostrou pra gente o quanto construir uma “história drag” é importante, não somente para que as novas drags possam saber de onde vieram, mas para mostrar a todos nós tudo o que podemos fazer e ser com aquilo que somos.

1

Clara Cuevas: Dalvinha, primeiramente gostaria que você se apresentasse e que contasse um pouco da sua trajetória:
Meu nome é Dalvinha Brandão, sou mulher, sou mãe, sou atriz, performer, celebrity e didjeia. Tenho 22 anos desde 1987, gosto de homens maduros e das coisas simples da vida. Apesar de ter uma vida um pouco mais abastada, sou uma pessoa comum, como vocês, só que bem melhor daí.

Clara Cuevas: Como foi o início do seu contato com essa “cena drag”? Acha ela muito diferente de hoje em dia com as redes sociais?
Eu tenho contato com drags desde o começo dos anos 1990, porque eu frequentava as baladas onde tinha show e boa parte das pessoas com quem eu convivia na noite se montava. Mas eu fui começar a trabalhar na área de verdade faz pouco tempo, sete anos mais ou menos. Quando eu comecei, em Curitiba, o cenário estava muito abandonado. A maioria das artistas que eu conhecia de antigamente já tinha parado de trabalhar, não tinha uma casa onde tivesse shows com constância. Aí eu comecei a produzir festas para as pessoas se montarem. Primeiro as festas que a gente fez na Casa Selvática, depois a Over, em parceria com o Luizo Cavet, e depois a Crossdresserdiscodiva, a convite da Isa Todt, do Paradis. Então, por necessidade absoluta, já fazia parte do meu trabalho de drag esse pacote todo: didjeia+produtora+social media, que hoje parece que todas são. Como eu já tinha experiência trabalhando com mídia social, isso serviu pra divulgar os meus eventos e o meu trabalho. Mas como eu circulo muito em circuitos diferentes, eu vejo que tem uma relação diferente com redes sociais, e às vezes elas criam um afastamento, em vez de aproximar. Tem essas bichas mais novas que têm total domínio dessas ferramentas todas, e passam 24h por dia no Instagram, no Snapchat (aplicativo que não me desperta o menor interesse, aí tá o nosso gap geracional), já começam criando seu canal no Youtube (às vezes não têm merda nenhuma pra falar), agora ficam transmitindo ao vivo no facebook cada vez que vão peidar. E aí desse povo meio parece que todo mundo se conhece, porque umas vão acompanhando as outras. Eu tento acompanhar também na medida do possível. Tem muita gente novinha fazendo coisas incríveis, tem muita bobagem também. Agora tem todo um universo de bichas maravilhosas que não têm essa capacidade, ou essa vontade, de passar o dia inteiro se divulgando, mas que têm seus trabalhos, suas trajetórias, etc. – e me parece que vão ficando invisíveis. Acho meio maluco isso, mas tá acontecendo em todas as áreas, não é só no nosso meio.

Clara Cuevas: Sobre as técnicas de performance, produção, maquiagem, ou mesmo o pajubá**, você acha que há algum tipo de memória que se passa “de geração para geração de drags”?
Tem sim. Tradicionalmente era assim, né? Tem a drag mais antiga que adota a mais nova e vai ensinando – as drags mães e as drags filhas (ou madrinhas e afilhadas, como se fala em alguns lugares). Isso acontece não só entre drags, mas em várias culturas de resistência, essa forma de transmitir conhecimento entre gerações. Apesar de hoje isso ser menos comum, ainda acontece bastante, principalmente quando na cidade existe um local onde tem shows com frequência. Quando tem uma casa, ou um clube, ou um bar, ou uma boate que resiste à pressão financeira e mantém os shows acontecendo (porque casa de show de drag não se sustenta com isso), aí essas tradições conseguem se segurar também. Quando não tem um local, aí acontece o que aconteceu em Curitiba entre 2000 e 2010 mais ou menos, a cena morre. Mas eu observei isso em várias cidades, essa cultura de mães e filhas. Por exemplo, aqui no Rio tem a Turma Ok, o Bar do Hélio, em Salvador tem o Âncora do Marujo, em Porto Alegre tem vários bares que existem há bastante tempo, como o Venezianos. Esses espaços fazem a manutenção dessa cultura. São lugares menores, em que vão se criando essas famílias alternativas. É muito diferente de São Paulo, por exemplo, que apesar de ter uma cena drag forte, e de ter casas tradicionais, não tem espaços para estreantes. Uma bicha que tá estreando raramente vai estar no palco da Danger ou da Blue Space. Então lá você não encontra muito dessa transmissão de memória, é meio cada uma por si. E muita bicha que já tinha um reconhecimento na sua cidade e foi pra São Paulo tentar a vida nessa área.

* *Pajubá é o nome da linguagem popular constituída da inserção em língua portuguesa de numerosas palavras e expressões provenientes de línguas africanas, muito utilizado pelas travestis e pela comunidade LGBT.

3

Clara Cuevas: Recentemente você publicou em sua página uma série de informações históricas relevantes a respeito de fatos que ocorreram antigamente e que hoje em dia as pessoas consideram que são inéditos, como, por exemplo: “sexo gay” em novelas; cantores usando brincos e vestidos; drags na televisão, enfim, dados que mostram uma trajetória de pessoas que romperam várias regras sexuais e de gênero no passado, mas que não são lembradas hoje em dia. Por quê você acha isso acontece? Quão importante você considera conhecer essas histórias?
Acho importantíssimo. Por mais que hoje tenha se popularizado, chegado em outros lugares e em outras classes econômicas, drag sempre foi e acredito que sempre vai ser uma atividade de certa forma marginal. E eu espero que seja mesmo. Mas, não tem instituições, por exemplo acadêmicas, ou governamentais, que se encarreguem de contar a nossa história. É razoavelmente simples você encontrar numa livraria qualquer livro sobre a história da música, ou da dança ou do teatro brasileiro. E lá você vai encontrar nomes e dados biográficos de vários artistas, alguns até obscuros, mas encontra. Sobre a arte drag não tem isso. A gente tem poucas publicações, a maioria muito recentes, geralmente vindas da academia, com uma linguagem que não é voltada ao público em geral e com pouca substância, porque quase não tem documentação pra se basear. Então somos nós que temos que saber e contar nossa história. Isso é ruim, porque complica o reconhecimento da profissão, mas é maravilhoso, porque a gente pode escolher como contar. Acredito que tem uma ignorância sobre o passado que se deve ao jeito como a gente lida com informação hoje. É rápido, é caótico e é digital. Eu sou do tempo do analógico e a gente processava informações de outro jeito. Por exemplo, eu me apaixonei pela Janis Joplin quando eu tinha, sei lá, uns 13 anos. Aí li a biografia dela, e descobri que ela amava Leadbelly e Bessie Smith. Aí não sosseguei enquanto não achei um disco do Leadbelly e um disco da Bessie Smith em sebos, porque eu queria muito saber como era o som deles. Isso foi tipo uns cinco anos depois. Aí a Bessie Smith se inspirava numa cantora chamada Ma Rainey, que eu só fui conseguir ouvir depois de adulto, quando já tinha internet. Hoje informação não depende tanto de buscar. Ela chega pra gente, em quantidades estratosféricas, e a gente mal tem tempo de escolher. É muita coisa. Então nem dá pra ficar culpando a “nova geração” por não ir atrás. É difícil pra porra. O que dá pra fazer, e eu tenho procurado fazer, é colocar essas informações pra circular, pra que comecem a passar pelas timelines e pelas vidas das pessoas. Quem tem interesse, como eu tenho, de que as nossas histórias sejam contadas, tem que criar meios pra isso.

Dalvinha-Brandao

Clara Cuevas: Antigamente se utilizavam os mesmos termos para se referir à performistas, travestis e gays em geral: “bonecas”, “terceiro sexo”, “invertido”, “efeminado”, eram termos comuns que se utilizavam para se referir a todas essas subjetividades como se elas fossem o mesmo. Nesse sentido, você acha que a história drag se relaciona com a história LGBT? Há algum termo brasileiro que poderíamos usar no lugar de “drag”?
Tem dois assuntos aí: um é o termo drag e outro é a relação entre esses diferentes grupos de pessoas. Sobre o termo, eu não vejo o menor problema em falar drag mesmo. Facilita muito a vida, todo mundo já sabe mais ou menos do que você tá falando e eu gosto porque o termo foi ganhando muita abertura, ele pode significar muita coisa. Mas sim, mudou. Quando eu comecei a conviver nesse meio, a gente falava transformista. E a transformista estava ligada a uma aura de glamour, uma exacerbação de uma ideia vigente de feminino, um pouco mais próxima da história do “female impersonator”, nos países de língua inglesa. E a gente falava caricata quando era alguém que trabalhava com humor. E aí também uma ideia bem específica de humor, que era o oposto da transformista. Era a bicha feia, torta, manca, exagerada, com os peitos de meia que vinham até a coxa, com pentelhos de pelúcia. Eu acho que drag permite que você fale de algo que ultrapassa uma estética. Drag pode ser performance, drag pode ser arquitetura, pode ser um flashmob, pode ter qualquer gênero, não depende de se parecer com nada nem com ninguém. Bom, o outro assunto é a proximidade das comunidades drag, trans, não-binária, etc. Além desse olhar de fora, que acha que é tudo farinha do mesmo saco, vou te dizer que mesmo pra quem tá dentro, nem sempre esses limites são tão claros assim. Tem muita mulher trans, por exemplo, que se reconhece como mulher a partir do momento em que começa a se montar como drag. E pra drag mesmo, nem sempre o gênero é uma coisa tão definida. Tem gente que insiste bastante nessa distinção “eu sou um homem, drag é a minha profissão”. E eu entendo insistir nisso, justamente porque o senso comum acha que é tudo vinho da mesma pipa. Mas acho que esse caráter transitório da drag permite que as pessoas experimentem ser outras coisas e essa é a parte mais maravilhosa. Porque acho que drag é um respiro nessa prisão que a gente tem nas identidades de grupo que a gente vive hoje. A gente se junta em grupos pra reivindicar direitos, voz, etc., “os gays”, “as lésbicas”, “os genderfluid”, sei lá o quê, e parece que nunca mais vai poder ser nada além daquela etiqueta. A drag prova que você pode ser tudo que quiser.

Clara Cuevas: Há alguns anos, em vários países, como nos Estados Unidos, na Argentina e no Paraguai, (@lgbt_history (EUA), Persecución a la Disidencia Sexual en Argentina e Recuperando memorias LGTBI – Paraguay), se iniciou uma revisão da história oficial LGBT, em que pessoas curiosas com a sua própria história, fazem entrevistas e vão até os arquivos para buscar os resquícios de pessoas que construíram história para além das “marchas internacionais padronizadas” das últimas décadas. Segundo o pesquisador paraguaio Erwing Szokol, “Há muita história, porém, pouca memória” nesse sentido. O que você acha dessa afirmação? É possível construir uma memória “marica” no Brasil?
Eu não sei se eu me sinto muito à vontade pra responder isso, porque não sei o que ele tá chamando de história e de memória. Pelo que eu entendo dessas duas palavras, acho que aqui talvez seja o contrário. A gente tem memória. Como eu citei esses lugares, essas tradições, estão todas aí, vivinhas. Tem muita gente aí pelo país – agora falando da minha área – trabalhando como drag, transformista, há várias décadas. Dá pra conversar com essas pessoas, dá pra ir a esses lugares. Mas como não tem uma institucionalização desse conhecimento, as pessoas às vezes nem sabem por onde buscar. Eu acho que às vezes nem sabem que isso existe. A memória tá aí. Inclusive muitas vezes as pessoas estão reproduzindo muitas coisas que já se faziam, sem nem saber de onde elas vêm. O que eu acho que falta é documentação. Falta interesse também em muitos casos, mas é difícil construir interesse se as pessoas nem sabem que a informação existe. Mas olha, isso aos poucos tá mudando. Por exemplo, semana que vem, eu estou produzindo uma conversa entre quatro documentaristas que fizeram filmes excelentes sobre história drag no Brasil. Hoje tem bem mais gente escrevendo sobre o tema. Tem o trabalho sensacional do Drag-se, que tá levando um registro histórico sobre drags, ainda que seja bem da atualidade, pra televisão. Tem muita gente da academia que é drag e que leva esse tema pra pesquisa acadêmica.

Clara Cuevas: Você acha que construir essa memória pode contribuir para as reivindicações de direitos hoje em dia? De que maneira?
Não sei se tem essa relação direta. Eu acho que essa memória/história serve pra uma coisa: pra gente entender que é gente e que tem valor. Não sei se melhora a nossa capacidade de reivindicar direitos, especialmente diante do poder público. O poder público geralmente é tão ignorante que não está nem aí pra isso. Só vai te atender se você tiver números e gerar buzz, não interessa a sua história. E vai fazer o máximo pra te passar a perna e tirar o que você já conseguiu assim que o buzz acabar.

Clara Cuevas: Deixa para a gente algumas dicas fundamentais para que qualquer pessoa interessada na história drag e possa se informar e, finalmente, deixar de cometer algumas gafes?
Gafe pode cometer, quem não erra é porque já morreu. Não tem como saber de tudo. O que você precisa saber mesmo, sem dúvida, é o que já aconteceu na tua área de atuação, na tua cidade ou na tua região. Se você é drag, vai saber quem são as drags da tua cidade, quais são os lugares, se já tiveram outros, quem já se foi, quem tá fazendo agora. Não interessa se você começou agora ou há 50 anos. Saiba do seu contexto, de onde veio, pra onde vai. Isso é conhecimento obrigatório. E eu acredito que a partir do momento que você se dispuser a fazer isso, você vai querer saber mais e mais. Porque as histórias são muito boas. E aí cada vez menos vai falar merda. Uma ou outra vai sair, eventualmente, porque humano fala merda. É isso que a gente mais faz.

4

 

Clara Cuevas: E quem curtiu a entrevista, pode te encontrar e te seguir por onde?
Tem o Facebook  e o Instagram  e no Youtube é só procurar Dalvinha Brandão. Tem eu e mais uma cantora evangélica com o mesmo nome e acredito que essa pitoresca coincidência seja benéfica para as duas.

Clara Cuevas: Um beeijo enooormeeeeeeeeeeee e obrigada por ter aceitado o convite!
Outro beijo imenso e obrigado por ler tudo (assim espero), porque a bicha aqui é simples, mas é prolixa.

*Mestre em História, Cultura e Sociedade pela UFPR, pesquisa temas relacionados à sexualidade e América Latina, memória travesti, ditadura, justiça e dissidência sexual. É professora de espanhol, história e gênero. Tenta lançar palavras entre a anarquia das ruas e a adrenalina da prestação que vai vencer. É colunista sobre os temas história e gênero nas redes da Brigadeiro.